ÉTICA, CIDADANIA E JUSTIÇA

PUBLICADO: 06 DE SETEMBRO 2003 | JORNAL CORREIO DO ESTADO – SUPLEMENTO CULTURAL

Escrito pelo poeta, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

A JUSTIÇA nos alcança em toda esfera da ação, a cada suspiro de vida, em qualquer parte da existência, em todo nível de trabalho, seja qual for o plano da nossa percepção.

As definições da justiça abrangem o que se chama Deus, causa e efeito, ação e reação, ou ainda simplesmente a vontade e a compreensão humana, dirigidas pelo senso intelecto-moral, em ação para ajustar ou retificar comportamentos às regras sociais estabelecidas.

De qualquer modo, nada e ninguém podem escapar ou estar acima da justiça, pois de qualquer modo, mil olhares nos contemplam: ou o mundo que nos conhece ao mesmo tempo nos corrige, ou a força das coisas, ao influxo do que chamamos Deus, criando e nos impondo as situações de justiça; e ainda, a própria consciência que nos obriga ao eterno ajuste ou reajuste para com as leis escritas naturalmente em nosso íntimo.

Justiça é virtude de entregar a cada um o que lhe pertence ou a resultante segundo as suas obras; é conformidade com o direito de acordo com as suas variações temporais; é a faculdade de julgar segundo a melhor consciência do direito; é, enfim, o atributo cada vez mais refinado, crescent4e no ritmo da evolução da capacidade de discernimento de cada um.

Anda o nosso mundo distante da justiça. Jaz o entendimento comum soterrado no egoísmo e submetido ao jogo da inteligência refinada, mas entregue às ambições de gozo pessoal, sede de sangue e de poder, prazer do materialismo brutal.

A solução é a dor e que todos cedo ou tarde se curvam, segundo a justiça que a tudo preside, para que os roteiros humanos se voltem à verdadeira evolução.

A justiça levada a bom efeito produz o status democrático de CIDADANIA. O estado de cidadão pressupõe o indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, e/ou no desempenho de seus dever4es para com este. E a grande finalidade é tornar-se, cada um, cidadão do mundo, ou seja, que atinja um estado de evolução que o caracterize como amigo e irmão de toda a humanidade e do Universo.

Cidadania é acesso, zelo e redistribuição quanto aos bens da civilidade, no espírito de coletividade.

Caminha o nosso mundo à margem do que chamamos cidadania. Escolas, moradia, segurança, saúde, alimentação, emprego, são itens inarredáveis do conceito da cidadania; no entanto, ainda que as nossas leis contemplem, com tais direitos, todos os indivíduos, e isso em linguagem elegante, clara e correta, a prática social contradiz a letra de um modo chocante. Por exemplo, é comum o chamado cidadão, quando falto de recursos financeiros, ver-se privado de água ou energia elétrica, serviços essenciais sem os quais nenhuma pessoa poderá dizer-se integrante do que chamamos de civilização.

Estranho à sociedade poderia tornar-se um elemento que sistematicamente não tivesse acesso à televisão, geladeira, computador, telefone e tantas outras coisas que o devem integrar ao meio comum e nele permanecer ao menos com relativo conforto.

Ética, cidadania e justiça constituem um trinômio cujos termos são interdependentes quando se aplicam à vida em sociedade. Fira-se a cidadania e já não teremos justiça; traia-se a justiça e falecerá a cidadania. Falta cidadania e desonra-se a justiça quando se fracassa diante da ÉTICA.

Na verdade, ética é um estudo acerca de juízos humanos a respeito de conduta individual ou coletiva, tendo como referência o bem e o mal de um modo absoluto quanto ao estado de humanidade ou relativo conforme as sociedades em suas variações, no tempo.

Agora essa palavra está sofrendo variações semânticas, e um indivíduo, que se enquadre na ética, agirá em conformidade com as regras estabelecidas pela sociedade como um todo, ou pelo segmento a que pertence: categoria profissional, denominação religiosa, instituição legalmente estabelecida.

Ética é um valor, um senso voltado ao bem, ao bom, ao belo. É, portanto amor.

Vejamos o quanto a ética, pelo que dela temos percepção, consubstancia na prática o pruro amor: desprendimento é o primeiro passo, pois indica que o individuo não viverá por privilégios e abusos, pois isso significa, filosoficamente, usurpação dos direitos alheios; a bondade é intrínseca da ética, pois prevê cortesia, civilidade, simpatia que alimenta a harmonia da vida em comum; a dedicação no serviço aos irmãos em humanidade, é também inerente à ética, pois todos os feitos do homem, assim em sua profissão como em todas as suas funções, devem voltar-se ao progresso de todos, sob pena de fracassarmos na nossa missão de viver trabalhando na Terra; e finalmente o perdão, cuja correta interpretação é não menos que o desapego dos ódios e do remoer das mágoas, alcançando-se o voo próprio das belezas da alma, é atributo da ética. Colocar-se acima dos melindres excessivos, superar a arrogância e a Susceptibilidade sombria nas relações humanas, significa exercer intimamente a virtude de perdoar, o que em parte nos garante o estado de “ético”.

Ética, cidadania e justiça: uma busca e um encontro incessante, sem os quais cessaria a razão de ser da humanidade.

Nota jornal CORREIO DO ESTADO – SUPLEMENTO CULTURAL
Campo Grande-MS, 06 de setembro 2003

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GUIMARÃES ROCHA – POETA E ESCRITOR
União Brasileira de Escritores – MS
Academia Maçônica de Letras – MS
Academia Sul-Mato-Grossense de Letras
Academia de Literatura e Estudos de Corumbá-MS

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